Entrevista com Bruno Diniz

Chen Ziqiang e Eduardo Molon

O TAI CHI CHUAN FOI A PRIMEIRA ARTE MARCIAL COM A QUAL VOCÊ TEVE CONTATO?
O primeiro contato com uma arte marcial foi interessante, porém não foi com o Taijiquan (T’ai chi ch’üan ou Tai Chi no sistema Wade-Giles), apesar de o contato não ter sido formalmente como aluno de artes marciais e sim como espectador. Minha mãe ficou sabendo de uma inauguração de uma academia de artes marciais perto de casa, convidou as mães dos meus colegas no que seria uma apresentação e fomos nessa academia de “Kung-Fu”, que veio a ficar famosa posteriormente no Rio de Janeiro. Claro que o evento para nós foi uma diversão e fazíamos uma algazarra, mas percebi que aquilo era diferente quando o mestre me deu uma encarada com um olhar afiado.

DE QUE MODO VOCÊ INICIOU A PRÁTICA DE TAI CHI CHUAN?
Na época em que comecei a treinar Taijiquan, já treinava judô e “Kung-Fu” Shao-lin do Norte ligado à academia da apresentação que mencionei. De fato, o Taijiquan era do estilo Yang, eu era muito novo e, mais uma vez, minha mãe foi coadjuvante nessa história. Trabalhando na Prefeitura, ela participava de um programa de saúde que oferecia as aulas e eu resolvi fazer também.

VOCÊ TEVE A OPORTUNIDADE DE TREINAR COM O GRÃO-MESTRE CHEN XIAOWANG NO BRASIL HÁ ALGUNS ANOS ATRÁS. QUAL FOI A IMPORTÂNCIA DESSA EXPERIÊNCIA?
A experiência foi realmente um divisor de águas. Nessa época, já estava dedicando exclusivamente ao Taijiquan, ainda da escola Yang. A apresentação do Grão-Mestre no Rio, eu lembro que foi no Hotel Glória, na época em que o Hotel ainda estava funcionando (em 2000) e o seminário foi no Museu Imperial de Petrópolis. O contato que tive com o Grão-Mestre foi uma explosão! O mestre lembrava aqueles personagens clássicos de Wuxia (Herói Marcial). A demonstração das habilidades, até a sua fala e seus gestos realmente impressionavam. Do momento da apresentação já tínhamos em mente que queríamos treinar aquele estilo.

VOCÊ COSTUMA LER LIVROS, REVISTAS OU ARTIGOS RELACIONADOS ÀS ARTES MARCIAIS? PODERIA INDICAR ALGUM QUE O TENHA MARCADO?
Sim, sou um leitor ávido sobre esse assunto. Talvez fosse melhor se eu levantasse da cadeira para treinar ao invés de passar tanto tempo lendo e estudando. Em primeiro lugar recomendo o livro do mestre Jan Silberstorff “Chen: Living Taijiquan in the Classical Style”, que é um ensaio sobre o Chen Taijiquan, a experiência autobiográfica dele como ocidental na China e a convivência com a família Chen na Vila de Chenjiagou (Fosso da Família Chen), o berço do estilo Chen, com conteúdo teórico e técnico muito bom que serve tanto para iniciantes se familiarizarem com a prática quanto para alunos avançados reverem seu treinamento. A leitura da revista da WCTA-Lat, para o associado, é primordial, pois possui artigos e entrevistas de praticantes sobre o estilo. E também o livro “A Essência do Tai Ji Quan” de David Gaffney & Davidine S.V. Sim, um livro com prefácio do próprio G.M. Chen Xiaowang, que fala sobre história, detalhes e aspectos técnicos e culturais a partir de entrevistas com os próprios praticantes mais famosos do estilo e da Vila de Chenjiagou. É o único livro editado em português que eu recomendo.

OS PRATICANTES INICIANTES MUITAS VEZES TÊM DIFICULDADES DE COMPREENDER COMO O RELAXAMENTO DO CORPO PODE GERAR FORÇA. VOCÊ PODERIA ESCLARECER QUAIS OS PRINCÍPIOS ENVOLVIDOS?
Em chinês, dizem que o que é muito simples torna-se muito complicado. Olhando pelo lado simples então, podemos dizer que quando a pessoa relaxa, suas juntas se aproximam umas das outras fazendo com que elas se estabilizem e possam transmitir de forma mais eficiente os vetores de força. O músculo, por mais forte que seja, e até mesmo a maior explosão que ele possa desenvolver, depende dessa estrutura para transmitir sua força.

EM ENTREVISTA RECENTE, A PROFESSORA DAVIDINE SIAW-VOON SIM, DO REINO UNIDO, DISSE QUE A RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO É UMA VIA DE MÃO DUPLA, DE MODO QUE O APRENDIZADO DEPENDE DA DEMONSTRAÇÃO DO INTERESSE DO ALUNO, DE UM LADO, E DA VONTADE GENUÍNA DO PROFESSOR DE TRANSMITIR A HABILIDADE, DE OUTRO. VOCÊ CONCORDA?
Sim, isso me parece bem razoável. O G.M. Chen Xiaowang diz que no começo o professor segue o aluno e, posteriormente, isso se inverte. Na cultura chinesa há uma grande simbiose entre professor e aluno, talvez mais forte no passado. Em termos de Brasil, vejo algo promissor nesse sentido, ou seja, em resgatarmos uma coerência nessa relação que, consequentemente, terá um impacto significativo na qualidade dos praticantes.

COM A SAÍDA DO PROFESSOR MOLON DO RIO DE JANEIRO, VOCÊ PASSARÁ A MINISTRAR AULAS DE TAI CHI CHUAN PARA UMA DE SUAS TURMAS DE ALUNOS. COMO VOCÊ VÊ ESSE DESAFIO?
Vejo que é realmente um desafio! Comecei a ter aulas com o Eduardo Molon em 2009, que é aluno com treinamento “a portas fechadas” da família Chen, e ele foi fundamental. Na época, já tinha desistido de treinar o Yang e treinava sozinho o Chen, porém, sem nenhuma orientação, de modo que achava que era impossível alcançar toda aquela habilidade e que, com o andar das coisas, acabaria por parar definitivamente. Gostaria de dar às pessoas a oportunidade que tive quando comecei a treinar com o Eduardo Molon, transmitindo para muitos o verdadeiro Taijiquan da família Chen.