Entrevista com Jader Duarte Brito

Chen Ziqiang e Eduardo Molon

Jader Duarte Brito, Instrutor Sênior em João Pessoa pela WCTA-Br, e Fisioterapeuta, concedeu uma entrevista à nossa aluna Patricia Przybylski, do Rio de Janeiro:

De que forma ocorreu o seu primeiro contato com o Taijiquan?

Aos 16 anos, tive meu primeiro contato com Taijiquan, ao praticar um outro estilo do Kungfu. Foram 10 anos de práticas daquele estilo de Kungfu e de um determinado tipo de Taijiquan. Neste período, tive a oportunidade de desenvolver boas habilidades, tanto de formas realizadas com armas (sabre, espada, lança, bastão etc.), quanto mãos livres.
Durante esse período, desenvolvi um interesse maior pelo Taijiquan, apesar de sentir que faltava algo em minhas práticas. Sempre praticávamos as formas (coreografias), mas sentia que aqueles movimentos eram vazios sem princípios. Sempre acreditei que o Taijiquan tinha algo diferente das outras artes marciais, porém não sabia o que. Tudo o que eu ouvia ficava muito preso às místicas e lendárias histórias que envolvem essa fascinante arte e não era isso que procurava. Precisava de algo mais palpável, algo que eu pudesse ver e sentir.
Certa vez, meu instrutor havia encontrado algumas informações sobre um possível curso de Taijiquan do Estilo Chen ministrado no Brasil por um Alemão. O primeiro de todos os estilos, pensei. Isso me parecia uma excelente oportunidade. Em 2007, meu instrutor foi para um desses Seminários e voltou fascinado. Contou-me como foi, porém me mantive ainda resistente a mudanças. Ainda me pergunto por que não o ouvi neste momento, mas acho que tudo tem seu tempo.
Em Agosto de 2008, fui para meu primeiro Seminário do Estilo Chen no Rio de Janeiro, que seria ministrado pelo Mestre Chen Yinjung, filho do Grão Mestre Chen Xiao Wang, patriarca da Família Chen, ambos ainda desconhecidos para mim. O seminário foi algo fascinante. Eu pude não só ver, mas sentir um pouco do que acreditava ser o Taijiquan. Ao retornar do seminário, procurei manter minhas práticas de Taijiquan, porém acrescentei aos treinos o pouco que havia conseguido absorver com o Mestre Chen Yinjung. Contudo, neste período estava dedicando pouco tempo às minhas práticas em virtude do trabalho e dos estudos.
Em 2012, resolvi que iria dedicar muito mais tempo ao Taijiquan e participar do máximo de seminários do Estilo Chen que pudesse. Não sabia eu que essa sede pelo Estilo Chen iria crescer tanto. Fui para meu primeiro Seminário com Mestre Jan Silberstorff (uma pessoa ímpar do qual tenho meus sinceros agradecimentos e carinho), um dos primeiros discípulos diretos do Grão Mestre Chen Xiao Wang, considerado membro da 20ª Geração da Família Chen. A partir deste momento, pude perceber que este era um dos meus caminhos a trilhar. Dei início a um ritmo intenso de aprendizado com o Mestre Jan Silberstorff. Para mim foi necessário deixar as outras práticas de Kung Fu, pois acredito que para aprimorarmos e crescermos o máximo que pudermos em qualquer coisa, seja nos estudos, no trabalho, nas artes marciais, é preciso dedicar tempo para isso. Ao longo desses anos, me tornei Instrutor Sênior pela World Chen XiaoWang Taijiquan Association Brazil – WCTA-Br e, desde então, venho procurando aprimorar minha prática e compartilhar meus aprendizados com outras pessoas.

Qual a importância da prática do Taijiquan no contexto das artes marciais nos dias atuais?

O Taijiquan no Brasil sempre foi visto como uma prática corporal para a saúde, cuja ciência vem, cada vez mais, ratificando essa visão que tempos atrás se remetia ao empirismo. Esta Arte promove diversos benefícios à saúde, desde os aspectos mentais (diminuição do estresse, da ansiedade, da depressão etc.) aos aspectos físicos (melhora da força muscular, flexibilidade, equilíbrio, além de prevenir problemas como osteoporose, osteopenia, osteoartrite etc.). Sendo assim, os aspectos Marciais, na maioria das vezes, são deixados de lado por muitos dos instrutores e praticantes. Acredito que um dos motivos pode ser o fato de alguns terem mais interesse pelo primeiro aspecto e outros pela falta de conhecimento, que era o meu caso, pois fui conhecer o lado marcial do Taijiquan quando tive contato com o Estilo Chen (gostaria de salientar que na minha trajetória pelo Taijiquan, só pude visualizar o lado Marcial dentro do Estilo Chen, mas isso não quer dizer que os demais estilos não explorem e desfrutem, tanto quanto o Chen, destes princípios). Atualmente, tenho observado certo crescimento pela busca de técnicas de defesa pessoal dentro do Taijiquan, práticas de push hands (empurrar com as mãos) que são utilizadas em campeonatos, mas a utilização para saúde ainda é predominante, pelo menos aqui no Brasil.

Você utiliza princípios do Taijiquan na sua atividade profissional e/ou no seu cotidiano?

Um dos motivos que me levou a escolher a profissão que atualmente exerço foi o Taijiquan. Desde minha adolescência, como já falei anteriormente, tenho uma admiração pelas artes marciais chinesas, e foi devido a essa vivência no meio das artes marciais que fui observando com maior detalhe os movimentos corporais, fui desenvolvendo um interesse e uma visão mais holística sobre como funciona o corpo humano, a melhora da consciência corporal que a prática marcial pode proporcionar etc. Percebi que era com isso que gostaria de trabalhar. Não era só ensinar artes marciais, mas ensinar às pessoas quão importante era conhecer o seu corpo, saber da importância de movimentá-lo. Sendo assim, escolhi ser Fisioterapeuta. Minha especialidade é a terapia manual e o movimento. Procuro através do meu olhar e das minhas mãos identificar possíveis alterações musculoesqueléticas (tensões musculares, encurtamentos, déficit de mobilidade etc.) que venham a gerar desconfortos, limitações, doenças e dores nas pessoas. Um dos princípios do Taijiquan, a Wai San He (Três Harmonias Externas), me remete a ver nosso corpo como uma estrutura integrada, harmônica. Destarte, o Taijiquan me ajuda nesse caminho, uma celebre frase de Chen Wangting: “Eu conheço a todos, mas ninguém me conhece.” Acredito que a prática de Taijiquan gera não só mudanças intrínsecas, mas proporciona uma maior capacidade de conhecer o outro, seu corpo, suas limitações, tensões.
Não só no trabalho que o Taijiquan vem a somar na minha vida. No meu cotidiano, muitas situações inusitadas que me deparo, consigo lidar sem tanto desgaste. Acho que isso se deve ao Taijiquan também.

Quais são seus planos para o futuro no que se refere à prática do Taijiquan?

A princípio penso em manter fiéis minhas práticas de Taijiquan, procurando sempre aperfeiçoar todos os ensinamentos que me foram repassados, e, claro, sempre buscando mais. Engraçado que durante essa minha trajetória pelo Taijiquan percebo que, quanto mais treino, mais tenho o que aprender. Quantas coisas são necessárias aprender e desenvolver. Mas também é perceptível que o pouco que trilhei me deixou profundos ensinamentos. Sendo assim, no futuro, espero poder dar continuidade a esse processo não só de aprendizagem, mas ensino também.