Entrevista com Monica Han

Chen Ziqiang e Eduardo Molon

DE QUE FORMA OCORREU SEU PRIMEIRO CONTATO COM O TAIJIQUAN E COMO FOI SUA TRAJETÓRIA ATÉ SE TORNAR PROFESSORA?
Eu tinha 24 anos e estava me graduando em Artes Plásticas na Universidade de Brasília. Já tinha algumas informações sobre o Taijiquan e seus benefícios de palestras na Sociedade Teosófica, que frequentei por 2 anos. Lá, pude ter uma introdução básica sobre Taoísmo, Budismo, Confucionismo e temas afins. Já admirava algumas artes marciais, mas nunca havia praticado uma. Mesmo sem conhecer a fundo tudo que envolvia esta arte milenar, o que me chamou a atenção foi ser uma prática que trabalha corpo e mente. A meditação já era algo que me interessava. Foi então que conheci mestres e professores do estilo Yang, que contribuíram para o meu desenvolvimento e descoberta no Taiji (Wang Hsiao Po, Shen Hai Min, Fu Sheng Yuan, Tânia Carmo, Estevam Ribeiro, Magno Bueno). Comecei minhas aulas já muito entusiasmada em praticar essa arte! Era uma aluna bem dedicada e fui estimulada pelo meu professor, na época a treinar para competições e torneios de Taiji. Conquistei o título brasileiro por 2 anos em 1996 e 1997. Essa trajetória me levou a campeonatos internacionais, e voltei trazendo alguns títulos na bagagem. Foi uma rica experiência e de total importância para o meu amadurecimento. Possibilitou-me perceber que não era bem esse o caminho que pretendia seguir. Decidi tirar o foco da competição e me aprofundar mais na filosofia, nos benefícios terapêuticos, nas aplicações marciais e em compreender como a medicina tradicional chinesa também se integrava nessa prática. Foi quando surgiram oportunidades para dar aulas. Um novo desafio na minha vida. Alguns anos depois, tive a chance de conhecer o estilo Chen, participando dos seminários do Grão Mestre Chen Xiaowang e do Mestre Jan Silberstorff. Tive grande satisfação em me filiar à WCTA (World Chen Xiaowang Taijiquan Association). Achei muito interessante a formação profissional que a Wcta oferecia. Não é muito comum no Taijiquan encontrar esse tipo de graduação para instrutores. E isso também traz um reconhecimento maior das pessoas que estão buscando praticar com mais seriedade. Foi quando amadureci profissionalmente e hoje sou professora (nível 3) da Associação.

O TAIJIQUAN FOI ELEITO PELA UNIVERSIDADE DE HARVARD A ATIVIDADE FÍSICA MAIS BENÉFICA PARA A SAÚDE. ISSO FOI UMA SURPRESA PARA Vc?
Não foi uma surpresa, mas acho de muita importância o reconhecimento de pesquisas e estudos de grandes instituições como Harvard e outras para fundamentar a eficiência da prática do Taijiquan. Essa interação de estudos da medicina e práticas corporais holísticas é essencial para que as pessoas reconheçam os benefícios que essa prática traz. Traz merecida credibilidade ao Taiji. Especialmente para as pessoas que nunca praticaram. Além disso, tenho praticado e ensinado há 24 anos, e durante esse tempo pude comprovar em mim mesma e nos meus alunos os benefícios que o Taiji traz.

SEGUINDO UM POUCO MAIS NA TEMÁTICA ANTERIOR, VERIFICA-SE QUE, POPULARMENTE, O TAIJIQUAN TEM SIDO ASSOCIADO A PRÁTICAS CORPORAIS TERAPÊUTICAS COMO A YOGA, QIGONG E O PILATES. É DESEJÁVEL QUE ASSIM SEJA OU FAZ-SE NECESSÁRIO SITUÁ-LO COM MAIOR ÊNFASE DENTRO DO UNIVERSO DAS ARTES MARCIAIS?
Acho importante situá-lo como o que é realmente: uma arte marcial e prática terapêutica. Taijiquan é defesa pessoal e também qigong. Acho que o estilo Chen mostra bem ambas as coisas. O Tuishou (mãos que empurram) e as aplicações marciais são de extrema importância para nos conscientizar dos princípios e compreender melhor o que praticamos na forma e aperfeiçoá-la. Assim, temos uma percepção que vai além de si mesmo para perceber o outro. Praticando o estilo Chen, tive essa maior consciência e acho necessário dar essa atenção para a dimensão marcial, porque nos traz uma complementação para o treino.

CONSIDERANDO A COMPLEIÇÃO FÍSICA FEMININA, A PRÁTICA DE TAIJIQUAN DEVE OBEDECER A DIRECIONAMENTO ESPECÍFICO NO QUE SE REFERE AO DESENVOLVIMENTO DAS HABILIDADES DE FORÇA E EXPLOSÃO?
A prática do Taijiquan é boa porque traz benefícios para pessoas de qualquer idade e sexo. Existem homens com a estrutura física mais e menos corpulenta e mulheres com a estrutura física mais e menos robusta. Porém, todos devem experimentar praticar em algum momento o princípio do Taijiquan, que contempla tanto a suavidade (rou) como a dureza (gang). Independente da estrutura física, o desenvolvimento da força interna é o que deve ser levado mais em conta. Acho importante direcionar exercícios para as habilidades de força e explosão. A meditação em pé e sentado são práticas que ajudam a desenvolver significativamente ambas, pois o relaxamento do corpo e da mente, com o acúmulo da energia e uma boa estrutura física resultantes, propiciam habilidade para direcionar a força e explosão.

VC INOVOU NO BRASIL AO ABRIR AULAS PARA O PÚBLICO INFANTIL DE TAIJIQUAN. QUAL ENFOQUE VOCÊ TEM DADO A ESSA PRÁTICA E QUAIS SEUS CONSELHOS PARA ENSINAR A ARTE ÀS CRIANÇAS?
Digo que ensinar é um grande desafio. Vc se depara com pessoas de ambos os sexos e personalidades, pessoas que carregam histórias e vivências variadas. Ensinar crianças tem sido uma grande chance de diversificar minha didática. Uma oportunidade de estudar mais e ampliar a prática para as outras faixas etárias. É muito importante entender o universo infantil e procurar falar na linguagem que as crianças entendem. Elas já têm algumas vantagens… já têm naturalmente a flexibilidade e uma boa memória. Por outro lado, percebi que para manter a atenção e o interesse pelo Taiji, iniciar com as formas de armas foi a melhor escolha. Fazer um trabalho mais lúdico e ir introduzindo as formas e a meditação pouco a pouco com crianças menores aumenta o interesse delas pela prática. A partir dos 9 anos, já é possível um entendimento maior, mas eu prefiro começar primeiro com as formas de armas e depois ir para as formas de mãos livres. Também já utilizo a meditação e o exercício da seda nessa faixa etária. O aspecto marcial chama muito a atenção das crianças e jovens, e por isso dou uma certa ênfase. Gosto de ter um momento para conversar com elas sobre como o que estão aprendendo pode ajudá-las na vida. Um momento para filosofar. A procura do Taiji por jovens tem crescido e muito pela indicação dos pais. Eles falam da dispersão, falta de concentração, problemas depressivos e ansiedade que vêm crescendo nos jovens. Acho que a prática desde jovem pode ajudar muito no desenvolvimento emocional e psicológico. Constatei, conversando com os pais, que a maior preocupação deles é dos filhos serem adultos mais equilibrados.

QUAIS OS MAIORES DESAFIOS PARA QUE O TAIJIQUAN SE TORNE MAIS POPULAR NO BRASIL?
Posso dizer que, hoje em dia, o Taijiquan já é bem popular. Hoje temos profissionais na área de saúde atuando em postos, ensinando o Taijiquan. Instrutores em praças, divulgação de eventos como o Dia Mundial do Taiji, ano novo chinês, etc. A procura pelo Taiji tem aumentado consideravelmente nos últimos tempos. Mas mesmo com tudo isso, acho que um dos maiores desafios é formar mais instrutores que ensinem a prática com os fundamentos e princípios do Taijiquan e com isso divulgar mais a arte. As pessoas têm suas vidas cheias de compromissos. Família, trabalho…e para ser um instrutor, professor de Taiji, deve-se ter um compromisso de muito treino e dedicação para transmitir os ensinamentos com mais profundidade.

PODERIA DEIXAR UMA FRASE FINAL QUE TRADUZA SUA EXPERIÊNCIA E OU LIÇÕES RETIRADAS DA PRÁTICA DO TAIJIQUAN?
Acho que se aprende muito ensinando. É uma troca de aprendizados, em que na relação professor/aluno, ambos crescem. Ao longo dos anos de prática, compreendi melhor sobre ser flexível, ouvir melhor a energia do outro e perceber o que acontece dentro de mim. Que, para ter um bom treino, é preciso melhorar o tempo de descanso, ter uma alimentação saudável e praticar, praticar muito para que as habilidades desenvolvidas propiciem melhorar a si mesmo e a relação com o outro. Que a prática do Taiji vai além de memorizar formas. É trabalhar sua energia para entrar em harmonia consigo e com os outros de verdade e procurar praticar dentro do termo “wude” (praticar a arte marcial trabalhando as virtudes).