Revista de Taijiquan 2012

Praticar Taijiquan (Tai Chi Chuan) em Chenjiagou

por Flávio Pontes Octaviani

Comecei a praticar Taijiquan (Tai Chi Chuan) estilo Chen no seminário de 2008 do Mestre Chen Yingjun (filho do Grão-Mestre Chen Xiaowang). Parecia que todos os anos de Kung fu e de Taijiquan (Tai Chi Chuan) que eu já estudara não haviam me ensinado muito. Tantas correções, tantas dicas, muito aprendizado. Naquele momento decidi que iria à China aprender o estilo Chen de Taijiquan (Tai Chi Chuan). Na linhagem do Mestre Chen Xiaowang, ao contrário do que aprendi em outros estilos, o mais importante é o principio. As formas do Taijiquan (Tai Chi Chuan) Chen contém inúmeras aplicações, mas todas elas partem de um mesmo principio. É como se estivéssemos fabricando uma chave que abre qualquer fechadura, ao invés de praticar várias aplicações para cada situação. É um princípio para todas as situações. O foco do treinamento está na estrutura do corpo.

Ter um Mestre que ensine a estrutura correta do corpo e o fluxo do movimento (da energia) é necessário. Após 2 anos seguindo os seminários do Mestre Jan, sentia que eu precisava um professor qualificado ao meu lado para que eu pudesse avançar mais rápido. Em 2011 a WCTA-Br (CXWTABR – World Chen Xiaowang Taijiquan Association) organizou uma viagem à China para participar do seminário do Grão Mestre Chen Xiaowang em Chenjiagou, tendo como guia nada menos que o Mestre Jan. Era minha oportunidade, pensei que iria pra não voltar mais! Larguei meu emprego e decidi que viveria para me aprofundar nessa arte que tanto já me havia enriquecido.

Treinar em Chenjiagou com os melhores Mestres que existem é uma experiência que muda a vida de um discípulo que realmente quer aprender e se aprofundar na arte. O treino é intenso. Nos dias normais são 3 horas de treinos de manhã e mais 3 de tarde (isto porque era um treino para um ocidental. O treino deles, chineses, era muito mais puxado). Nos dias de folga a pratica era leve: uma hora e meia de manhã e mais uma hora e meia de tarde. Não existe sábado e domingo. Na escola do Chen Bing as folgas eram a cada 10 dias quando havia uma feira que seguia o calendário lunar. Na pratica não há floreios. O foco são as correções posturais e a sensação é que estão esmagando um pedaço de carvão para transformá-lo em diamante. Nas primeiras semanas eu não conseguia permanecer mais que alguns segundos em cada postura e, muitas vezes, as pernas doíam muito. Conforme eu ia ganhando força e resistência as posturas iam ficando mais difíceis – chegava a não entender como era possível ficar naquela posição que, para eles, parecia tão natural.

A escola do Grão-Mestre Chen Xiaoxing é gerida pelo seu filho, o Mestre Chen Ziqiang. A forma como ele ensinava os chineses mostrava seu poder. Só vendo pra entender. Descrever em palavras soa pouco para o que se vê. Mostra o que é o Taijiquan (Tai Chi Chuan) e onde se pode chegar. Uma meta que estipulei a mim mesmo. Uma caminhada que está apenas começando, mas na qual pouco a pouco, com treinos diários, determinação, perseverança e a busca de professores que possam me mostrar o caminho, avanço. Dois meses mais tarde, já bem mais forte do que quando eu cheguei lá, passei a treinar também “tui shou” e “suai jiao” com os alunos chineses. Era aí que ia entendendo melhor as aplicações da forma e ao mesmo tempo como melhorar a própria forma. Ficou claro que o que determina o nível de cada um é, principalmente, o tempo de prática bem orientada que cada um tem. Enquanto eu empurrava facilmente aqueles que acabavam de chegar, sentia que era impossível empurrar aqueles que já estavam lá há algum tempo.
Chenjiagou é uma cidade rural e pobre, mas tem muito a ensinar. As pessoas que lá vivem são exemplo de vida. Disciplina, determinação, dedicação, companheirismo, respeito: pessoas que oferecem aquilo que tem para dar. Uma grande família da qual eu, com toda a dificuldade de comunicação e as mais variadas formas de diferenças culturais, fazia parte. Eu me sentia amado por aquelas pessoas.

Quatro meses de China me ensinaram muito sobre a vida, mas, principalmente, sobre Taijiquan (Tai Chi Chuan). Mas também me mostraram o quanto eu ainda tenho pra praticar e aprender.
Meus objetivos de curto e médio prazo são: começar a ensinar. Ensinar é uma forma de constantemente rever o que se sabe e sempre buscar conhecimento para si e para os outros. Atender a todos os seminários que eu puder, buscar aprender ao máximo com os Mestres que vem ao Brasil nos ensinar, e com todas as dicas e instruções que os demais professores da WCTA-Br (CXWTABR – World Chen Xiaowang Taijiquan Association) puderem me transmitir.

Treinar, treinar e treinar. Quem acompanha minha vida no Taijiquan (Tai Chi Chuan) percebe o quanto evoluí nesses últimos anos de estudo e ainda mais depois de minha ida à Chenjiagou. Eu mesmo estou muito feliz com o que já conquistei. Mas tenho plena consciência de que estou engatinhando, ainda tentando entender o básico. É uma busca dentro de mim mesmo e treinar com atenção e dedicação é a única forma que eu tenho para me melhorar. Minha vontade é de voltar pra Chenjiagou hoje mesmo, e ficarei feliz quando chegar a próxima oportunidade. Porém, minha vida está aqui no Brasil. Sorte minha que aqui também existe a oportunidade de crescer e aprender junto à WCTA-Br (CXWTABR – World Chen Xiaowang Taijiquan Association). Agradeço à WCTA-Br (CXWTABR – World Chen Xiaowang Taijiquan Association) por proporcionar -me esta oportunidade de conhecer e de praticar com o Mestre Jan Silberstorff e com o Mestre Chen YingJun aqui no Brasil, e por apoiar-me em minha estada em Chenjiagou para praticar nas escolas de Chen Xiaoxing e de Chen Bing.