Revista de Taijiquan 2017

As Mulheres e o Taijiquan (Tai Chi Chuan)

por Patrícia Przybylski

É comum que o iniciante no Taijiquan (Tai Chi Chuan) julgue tratar-se de uma arte marcial genuinamente masculina, quer porque imaginar ser necessário o emprego de força física nas formas e aplicações, quer porque a maioria dos praticantes e dos atuais grandes mestres mundiais no Oriente (Gão-Mestre Chen Xiaowang, seus descendentes e familiares) e no Ocidente (Mestre Jan Silberstorff) são homens, sendo reduzida a divulgação nos meios de comunicação de mulheres ligadas a esta prática. No entanto, a influência e a contribuição feminina para o desenvolvimento do Taijiquan (Tai Chi Chuan) é muito maior do que se imagina.

Basta pensar que Yuenü, o primeiro “herói” da história das artes marciais chinesas, era, em verdade, uma heroína. Yuenü, que significa “A dama de Yue”, foi, segundo a mitologia, uma espadachim nascida em Yue, província de Zhejiang, que teria vivido no reinado de Goujian (496-465 AC). Conforme consta de uma passagem do livro “Wu Yue Chun Qin, Gou Jian Shi San Nian” (História de Wu e Yue, Décimo Terceiro Ano do Reino do Rei Gou Jian), Yuenü vivia em uma floresta e aprendeu a lutar caçando com seu pai, tendo sido convidada pelo rei, após impressioná-lo com a demonstração de suas habilidades e filosofia de combate, a treinar o Exército para uma batalha contra o Estado vizinho de Wu. A espadachim desempenhou brilhantemente sua missão, acrescentando ao treinamento seus conhecimentos sobre a alquimia interna. Ela usava uma metáfora para explicar o movimento das energias ying e yang: “Abra a porta fechada e feche a porta aberta. Quando Yin dissipa, Yang aumenta.” Ensinava, ainda, que, ao mesmo tempo em que fortalecemos o espírito (energia) internamente, devemos restar externamente calmos. Considerada como a primeira expoente da arte da espada, sua técnica e estratégia e influenciou enormemente as artes marciais.

Já no período após Cristo, na segunda metade do século III, foi publicado na China o livro Huang Ting Jing, que, juntamente com o livro Ji Xiao Xin Shu, serviu de referência para que o general Chen Wangting criasse o Taijiquan (Tai Chi Chuan) Chen (base de todos os demais estilos familiares de Taijiquan (Tai Chi Chuan)), combinando seus conhecimentos de militarismo com o trabalho interno de energia. Embora não haja registros históricos precisos, é bastante provável que a autora da primeira (e principal) parte do Huang Ting Jing – constituída por trinta e seis capítulos sobre condutas de vida, nutrição, sexualidade e trabalho interno da energia – tenha sido Wei Huacun, nascida em Recheng, província de Shandong.

Wei Huacun teve formação taoísta, sendo considerada a matriarca da escola da “Claridade Suprema”, a qual liderou. Praticou o Dao por toda sua vida, o que lhe conferia condições intelectuais e elevação moral para escrever o referido livro. É possível, contudo, que o tenha apenas compilado a partir de textos antigos ou, ainda, recebido o texto espiritualmente, conforme conta a lenda. Seja como for, dúvida não há que a Sra. Wei operou a divulgação de seu conteúdo e, por isso, tornou-se uma mulher importantíssima na construção do Taijiquan (Tai Chi Chuan).

Se a biografia das citadas mulheres parece longínqua, o mesmo não se pode dizer daquelas que se destacaram no Oriente atual, cabendo especial referência às mulheres da família Chen. A primeira a merecer destaque é Chen Yuxia (1924/1986), filha de Chen Fake (o maior mestre do século XX e criador das formas Xinjia) e pertencente à décima-oitava geração da família. Começou a treinar com seu o pai aos oito anos de idade, chegando a praticar de dez a vinte formas por dia, o que lhe rendeu um alto nível de proficiência na Forma de Espadas. Foi conhecida não somente pelo estilo sereno e suave de sua prática, mas, também, por sua determinação. Participou de grandes seminários e competições de artes marciais e trabalhou como consultora da Associação Artes Marciais Tradicionais da Universidade de Shandong. Em 1985, iniciou a coluna “Espada Taiji da família Chen” no Jornal “Artes Marciais de Shaolin” e publicou em três edições consecutivas. A técnica desenvolvida pela filha do grande mestre foi disseminada entre praticantes e formou instrutores, de modo que sua habilidade a tornou uma autoridade no Taijiquan (Tai Chi Chuan) estilo Chen, permanecendo um ícone mesmo após sua morte.

Referência especial também é devida à Chen Liqing (1919-2009), a primeira mulher reconhecida como mestre na linhagem moderna da família Chen, no ano de 1994. Tal qual grande parte dos integrantes da família Chen, Liqing já treinava com seu pai e avô (respectivamente Chen Honglie e Chen Chunyuan) desde os 07 anos de idade na Vila de Chenjiagou, Condado de Wen, Província de Henan, onde nasceu. Foi aluna de Chen Dalu, irmão de Chen Fake, e ficou famosa pela prática da forma Xiaojia. Liqing também foi uma das primeiras mulheres do Condado de Wen a cursar a Faculdade, tornando-se professora de história chinesa. Paralelamente, difundiu a arte marcial pelo mundo e conquistou muitos discípulos no Japão, EUA, sudeste da Ásia, China, Hong Kong e Taiwan, os quais, por sua vez, continuam, até hoje, formando outros praticantes com base em seu método e ensinamentos.

Por fim, não seria possível falar de grandes expoentes da família Chen sem citar a Rainha da Espada Dupla, Chen Guizhen, nascida em Chenjiagou em 1959 e pertencente à vigésima geração da família. É filha de Chen Qiwang e foi apresentada desde pequena às teorias, formas, armas e às aplicações do Taijiquan (Tai Chi Chuan) estilo Chen, tendo recebido ensinamentos diretos do Grão-Mestre Chen Xiaowang o outros mestres tais como Chen Zhenglei, Wang Xian e Zhu Tian Cai. Foi instrutora de gongfu em seu país e, posteriormente, viajou à Alemanha, onde foi apelidada de Rainha da Espada Dupla, dada sua especial habilidade com as armas. Lecionou em diversos outros países como Coréia do Sul, Japão, EUA, Austrália e Taiwan, participou de competições e treinou competidores.

Apesar de a sociedade chinesa ser eminentemente patriarcal, a ausência de registros históricos da contribuição das mulheres parece mais ser fruto do pouco material escrito sobre o Taijiquan (Tai Chi Chuan) do que de uma vedação expressa quanto ao treinamento feminino.

É bem verdade que sempre houve um menor número de praticantes homens na China, uma vez que os jovens do sexo masculino demonstravam maior interesse pela prática e eram, desde cedo, incentivados a desenvolvê-la. No entanto, as mulheres que se sentiram atraídas pelo Taijiquan (Tai Chi Chuan) puderam receber treinamento direcionado,  inclusive dentro da família Chen, o que possibilitou que algumas chegassem à condição de maestria, tais como as acima citadas.

Já no Ocidente, no ano de 1949, o Taijiquan (Tai Chi Chuan) chamou a atenção de duas mulheres: a norueguesa Gerda Geddes e a norte-americana Sophia Delza. A primeira, bailarina contemporânea e estudiosa de psicoterapia, admirou-se ao ver a demonstração da forma em um campo em Shanghai. Na ocasião, sentiu uma sensação de frio e calor percorrendo de cima a baixo a espinha e pensou ser aquilo que estivera procurando a vida toda: uma abordagem do físico direcionada para a terapia mental. Já Delza, nascida no Brooklyn, atuava como bailarina profissional e coreógrafa, tendo se apresentado em inúmeros shows, inclusive na Broadway. Ao acompanhar seu esposo em uma viagem para Shanghai, teve contato pela primeira vez com o Taijiquan (Tai Chi Chuan), interessando-se de imediato pela arte marcial.

Mesmo enfrentando a dificuldade de serem mulheres e estrangeiras, a barreira da língua e o tumulto advindo da ascensão do regime comunista, lograram êxito em treinar com mestres chineses renomados e, após, decidiram levar a arte para seu país de origem. Destacaram-se, portanto, por seu pioneirismo no Ocidente, vislumbrando a importância da prática e o seu potencial para o equilíbrio da saúde física e mental.

Muitos praticantes se intrigam com a possibilidade de mulheres executarem com eficácia as chamadas aplicações das formas (Tuishou). Neste particular, cumpre esclarecer que a fragilidade externa não é uma desvantagem no Taijiquan (Tai Chi Chuan), porquanto esta arte marcial se desenvolve por meio do balanceamento das energias ying e yang, que representam a contenção e a expansão da energia interna do corpo. Daí segue que a força dos golpes é gerada de dentro para fora, a partir do centro do corpo, não sendo fruto da compleição física. A delicadeza exterior do sexo feminino, em verdade, esconde a intensidade de seu poder interno e pode até servir como estratégia de combate.

Há uma anedota antiga envolvendo uma mulher em Chenjiagou, que teria golpeado seu esposo após um desentendimento ocorrido no âmbito do lar. Conta-se que, após chegar do trabalho na roça e verificar que o jantar não estava pronto, o homem teria se precipitado em direção à esposa que, com o filho do casal no braço direito, executou o movimento da Laojia chamado Gao Tan Ma (Alongar-se para o alto em direção ao cavalo) e, com a mão direita aberta, lançou o homem pela janela da casa. Depois deste acontecimento, popularizou-se o ditado de que “nenhum homem jamais deveria se casar um uma mulher de Chenjiagou”.

Ao ser questionada, em uma ocasião, a respeito de homens treinarem tuishou com mulheres, Chen Guizhen afirmou que, no início, os homens têm a vantagem da força física, mas, quando se chega a um determinado patamar, a vitória depende mais de técnica e de sensibilidade. Segundo ela, você pode sentir a energia de seu oponente antes de ele utilizá-la e obter uma vantagem no combate.

Frequentei uma comunidade de chineses radicados no Brasil, alguns dos quais praticantes de Taijiquan (Tai Chi Chuan) e estudiosos do Dao, por cerca de um ano, e pude observar a dedicação de mulheres chinesas aos estudos do equilíbrio do corpo e da mente. Palestravam com muita desenvoltura sobre o cultivo diário e permanente de virtudes, sobre a meditação e sobre a adoção de uma vida simples. Esses hábitos também parecem ser aliados fundamentais à disciplina dos exercícios do Taijiquan (Tai Chi Chuan) para o objetivo de se atingir um nível aprofundado na prática.

Como se pode verificar, o legado das mulheres é inegável quando se trata de analisar a história e o desenvolvimento do Taijiquan (Tai Chi Chuan). As mulheres contribuíram não apenas com o desenvolvimento de técnicas e habilidades marciais, mas também com estudos sobre a circulação da energia interna e para a transmissão desse conhecimento, seja pela escrita, seja pelo ensino prático do Taijiquan (Tai Chi Chuan).

Atualmente, inúmeras mulheres seguem praticando e lecionando o Taijiquan (Tai Chi Chuan) no Oriente e no Ocidente, cabendo fazer referência às instrutoras brasileiras Liana Netto, Monica Han, Maria Nilza dos Santos, Marise Severo de Souza Pereira e Soraya Lacerda, certificadas no nível 2 pela World Chen Xiaowang Taijiquan (Tai Chi Chuan) Association – Brazil (WCTA-Br (CXWTABR – World Chen Xiaowang Taijiquan Association)), que estão ajudando a construir, no presente, os pilares desta arte no nosso país.