Revista de Taijiquan 2018

Uma Parte e o Todo

por Jader Duarte Brito

Durante a prática de Tajiquan, nosso corpo está constantemente procurando equilíbrio e sinergia entre suas partes e seu todo. “Quando uma parte é movida, tudo se move”². Se observarmos o movimento Yan Shou Gong Quan – A mão esconde o braço e o punho (Figura 1), presente nas formas do Estilo Chen de Taijiquan (Tai Chi Chuan), perceberemos que, ao realizar um soco, não é apenas o membro superior que se movimenta lançando a mão à frente, mas todo o conjunto corpóreo, que é acionado buscando uma perfeita harmonia.

Figura 1 Movimento Yan Shou Gong Quan – A Mão Esconde o Braço e o Punho (A – Momento de Preparação; B – Momento de Execução)¹

Pode-se explicar como os movimentos do Taijiquan (Tai Chi Chuan) ocorrem seguindo o fluxo energético (Qi) que circula por todo o corpo. Nosso Jing, contudo, corpo físico/matéria (músculos, fáscias e ossos) também interage sinergicamente como uma estrutura integrada, fazendo com que a transferência de força siga por caminhos semelhantes ao Qi. Hoje, com as rotinas de vida que o ser humano vem se submetendo (sedentarismo, excesso de trabalho, péssimos hábitos posturais e alimentares, etc.), torna-se cada vez mais imperceptível essa maravilhosa interação holística. Inúmeras são as práticas que nos auxiliam no reaprendizado da movimentação consciente do corpo, uma delas é o Taijiquan (Tai Chi Chuan).
Este texto abordará de forma sucinta como ocorre esse fluxo energético e a conexão física (músculo, fáscia e osso) usando como exemplo a dinâmica do Yan Shou Gong Quan. A escolha desse movimento foi feita por ele ser mais simples e fácil de compreender tanto pelo leitor praticante de Taijiquan (Tai Chi Chuan) quanto pelo não-praticante. Em um segundo momento, serão explanados alguns aspectos de como essa conexão física pode influenciar positiva ou negativamente em nosso corpo durante a realização da prática de Taijiquan (Tai Chi Chuan). Para facilitar a abordagem discursiva, o movimento será abreviado para YSGQ.
Durante o YSGQ, o fluxo energético irá conduzir o Qi do Tantien para o Mingmen, depois, o Qi sobe pela coluna até o nível da sétima vertebra cervical, conforme ilustrado na Figura 2, seguindo para o ombro, cotovelo, punho, mão e dedos. Todavia, não é somente esse o caminho percorrido, pois, ao mesmo tempo que ocorre esse processo, a energia está circulando por todo o nosso corpo. Membros superiores e inferiores interagem simultaneamente, integrando-se de ambos os lados.

Figura 2 – Representação esquemática da localização do Tantien, Mingmen e 7ª Vertebra Cervical

Essa energia irá fazer o mesmo trajeto no outro membro superior, porém, nesse, a energia para no cotovelo. Concomitantemente, no membro inferior esquerdo, o Qi irá fluir do Tantien em direção ao Mingmen, direcionando-se para baixo até o cóccix e partindo, posteriormente, a quadris, joelhos e pés. No membro inferior direito o Qi permanece no Tantien. Contudo, é importante salientar, que uma das principais características do Taijiquan (Tai Chi Chuan) é a capacidade de mutação (adaptações), o que torna esta descrição do fluxo energético uma opção não uma regra.
A conexão física do movimento segue uma onda de estruturas interligadas que Thomas Mayers denominou de meridianos miofasciais, que, resumidamente, podem ter seu significado explicado por uma análise da palavra “miofáscia”, que denota a natureza agrupada, inseparável do tecido muscular (mio-) e a teia de tecido conjuntivo (fáscia) que o acompanha (Figura3). Assim, os meridianos miofasciais são estruturas constituídas por músculos, fáscias e ossos que, por meio da ação sinérgica (ou em tensegridade), permitirão a fluidez dos movimentos em maior harmonia e eficácia.³

Figura 3 – Teia Fascial unindo fibras musculares

O termo continuidade miofascial descreve, por sua vez, a conexão entre duas estruturas adjacentes e longitudinalmente alinhadas dentro dessa teia estrutural (miofáscia), a exemplo da “continuidade miofascial” entre o Latíssimo do Dorso e o Glúteo Máximo contralateral, interligados pela Fáscia Toracolombar (Figura 4). Em outras palavras, a continuidade miofascial é uma parte local de um meridiano miofascial. Segundo Mayers, nosso corpo é constituído por 12 meridianos miofasciais.

Figura 4 Esquema representativo da Continuidade Miofascial da Linha Funcional Posterior

No caso do YSGQ, iremos nos ater aos Meridianos Miofasciais das Linhas Funcionais Posteriores e Anteriores, representados na Figura 4, pois serão os principais para a execução do movimento, o que não significa, porém, que os outros 10 meridianos não estejam atuando – como já foi falado anteriormente, se o braço se move, todo o resto também o faz: assim são as interações miofasciais. Deve-se salientar que a ação dessas linhas é cruzada, realizando, portanto, movimentos rotacionais. Ou seja, na Linha Posterior, o Vasto Lateral e Glúteo Máximo do lado direito conecta-se através da Fáscia Toracolombar com o Latíssimo do Dorso à esquerda e vice-versa; na Linha Anterior, o Adutor Longo do lado direito interage com o Reto Abdominal e Peitoral Maior à esquerda.
Se dividirmos esse movimento do Taijiquan (Tai Chi Chuan) em dois momentos, o primeiro seria o momento de preparação (Figura 1A) e o segundo o de execução (Figura 1B). No primeiro momento, a Linha Funcional Posterior, correspondente à mão que realizará o soco, irá encurtar-se, enquanto que a Linha Funcional Anterior, correspondente a esse mesmo lado, será alongada, possibilitando que os tecidos elásticos (fáscias) que envolvem essas estruturas acumulem energia. As Linhas Funcionais Posterior e Anterior da outra mão (que realizará uma cotovelada) irão alongar e encurtar-se respectivamente (Rotação do Tronco). Esse jogo cruzado de tensões irá potencializar o movimento do soco e cotovelada.
Durante a fase de execução, toda a energia miofascial acumulada na fase de preparação será somada ao movimento inverso que as Linhas Funcionais irão realizar do lado da mão que realizará o soco. A Linha Posterior alongar-se-á e a Anterior encurtar-se-á, acontecendo o inverso nas Linhas Funcionais do braço que realizará a cotovelada.

Figura 5 Linhas Funcionais Anterior e Posterior com suas estruturas miofasciais correspondentes e representação esquemática das direções de Transmissão de Força Miofascial

Um estudo realizado por Huijing (2009) constatou que a tensão gerada em um músculo não é transmitida apenas para o tendão, mas também para outras fáscias que estão intimamente relacionadas por meio da teia miofascial. A transmissão através dessa teia foi chamada por Carvalhais et al (2013) de Transmissão de Força Miofascial (TFM), sendo confirmada pela constatação em uma pesquisa da suficiência da contração do Latíssimo do Dorso (30% Contração Voluntária Máxima) para mudar a posição do quadril oposto na direção de rotação externa e aumentar a rigidez passiva desta articulação. Essa TFM apresenta uma propagação de tensão entre o músculo Latíssimo do Dorso, a Fáscia Toracolombar e o Glúteo Máximo, estruturas que vêm a formar a Linha Funcional Posterior.
Se observarmos com mais atenção essas estruturas miofasciais, podemos constatar que elas interferem direta e indiretamente nas articulações. Atendo-nos ainda à Linha Funcional Posterior, poderemos trazer para a nossa prática diária de Taijiquan (Tai Chi Chuan) as evidências encontradas nos estudos supracitados.
Imagine que, muitas vezes, podemos estar querendo relaxar o quadril, mas não nos atentamos para a tensão dos ombros, que, por meio dessa conexão miofascial, acaba interferindo no posicionamento do quadril (o contrário também pode acontecer, o quadril por meio da tensão do glúteo máximo promover uma rotação interna do braço contralateral). Através dessas ações negativas, podemos, com a prática do Taijiquan (Tai Chi Chuan), identificar e trabalhar tais aspectos, promovendo a utilização funcional correta dos meridianos miofasciais e, no caso em específico, a Linha Funcional Posterior. A interação em harmonia (Tensegridade) dessa Linha Fascial irá deixar as articulações dos ombros e quadris relaxadas (livres de tensões) e na posição correta, potencializando a capacidade de força sinérgica desse conjunto de tecidos sem sobrecarregar as articulações possibilitando assim trabalhar as Três Harmonias Externas (Wei San He).

REFERÊNCIAS

1. WANG, C.X. Chen Family: Taijiquan (Tai Chi Chuan) of China. ed. China. 2015.
2. SILBERSTORFF, J. Chen: Living Taijiquan (Tai Chi Chuan) in the Classical Style. 1. ed. 1997.
3. MYER, T. Anatomy Trains. 2. ed. Elsevier, 2001.
4. HUIJING, P.A., 2009. Epimuscular myofascial force transmission: a historical review and implications for new research. International Society of Biomechanics Muybridge Award Lecture, Taipei, 2007. Journal of Biomechanics. v. 42, 9–21.
5. CARVALHAIS, V.O.C. et al. Myofascial force transmission between the latissimus dorsi and gluteus maximus muscles: An in vivo experiment. Journal of Biomechanics. v. 46. 2013. 1003–1007.