Revista de Taijiquan 2013

Guerra, Paz e Taijiquan (Tai Chi Chuan)

por Daniel Luz

Dicotomia e Dialética

Os antigos chineses pensavam em pares de categorias: impossível pensar a violência sem pensar a paz, o movimento sem o repouso, a luta sem a serenidade. Tais elementos são vistos como complementares e geradores uns dos outros. Dessa forma, o oposto está sempre implícito em qualquer situação. De fato, a etimologia do logograma wǒ , “eu, mim”, mostra duas alabardas (gē) se chocando. É o próprio ser que emerge da tensão entre interno e externo.

Consideremos, por outro lado, as dicotomias clássicas, inauguradas em Platão (mundo “grosseiro”e “mundo das formas perfeitas”), continuada pela idade média (“céu x terra” / “divino x mundano” / “espiritual x carnal”) e presente no renascimento e na idade moderna (“mente x corpo” / “razão x emoção”). Priorizando o intelecto, tais clivagens se naturalizam – a própria reflexão se estrutura em torno delas, que não são, elas mesmas, objeto de análise. Partindo dessa relação de superioridade da mente, construímos uma interação com o real intermediada por pensamento, cálculo e planejamento. É preciso “pensar bem” antes de agir, e não “sentir bem”.

Ora, nem esse primado do intelecto nem essas dicotomias encontram formulação similar no pensamento taoísta, que nos fala das continuidades mutuamente geradoras: o Céu e a Terra engendram o Homem; este recebe do Céu o espírito e da Terra a forma. Noite e dia são distintos, mas só fazem sentido considerados como um ciclo; fechado e aberto, interior e exterior, não são considerados essencialmente, mas apenas relacionalmente. Reafirmamos: aqui, todo elemento em oposição define, sucede e também antecede seu oposto, ambos constituindo aspectos diferenciados de uma totalidade orgânica.

Paz, Luta e Morte

No Ocidente, a idéia de paz se situa em relação de oposição à batalha. Como a própria vida é luta, é batalha, uma existência não laboriosa só é concebível depois da vida, surgindo uma curiosa associação entre paz e morte. Do morto se diz: “agora ele está em paz”; “atingiu a paz eterna”, “está na paz do Céu” etc. A idéia de “paz” é, portanto, identificada com inação. O céu, representação transcendente de um lugar perfeito além do mundo, onde acaba todo o esforço e que é nosso objetivo “verdadeiro” (“a vida é só uma passagem”) é estranha ao imanentismo taoísta: para o sábio, não importam a origem ou o futuro do mundo, mas o presente, tal como se apresenta:

Ele [o pensamento chinês] não construiu um mundo de formas ideais, como arquétipos ou puras essências, a separar da realidade e que pudessem dar-lhe forma: todo real se lhe apresenta como um processo, regulado e contínuo, decorrente da simples interação dos fatores em jogo (ao mesmo tempo opostos e complementares: os famosos yin e yang). A ordem não decorreria, portanto, de um modelo, no qual se possa fixar o olhar e que se aplique às coisas; ao contrário, essa ordem está contida inteiramente no curso do real, que ela conduz de um modo imanente e cuja viabilidade ela assegura (daí o tema onipresente no pensamento chinês do “caminho”, o Tao).

Assim, a maneira de o sábio agir não parte do “ideal”, pensamento prévio a ser forçosamente imposto ao real, mas da observação desapaixonada da realidade e suas propensões. Ativadas pela ação, estas podem levar a situação a se desenvolver favoravelmente com um mínimo de esforço. Eis o fundamento teórico de tantas estratégias marciais em que o movimento do próprio adversário é empregado para derrotá-lo. A esse respeito lemos no Daode Jing:

O bom líder não é belicoso
O bom lutador não perde a cabeça
O vencedor hábil triunfa sem lutar
Quem sabe usar bem os homens
Mantém-se abaixo deles
Essa é a Vida que não luta
A força que manipula os homens
O pólo que se estende até o Céu

No momento em que o lutador inferior se detém para pensar no melhor modo de “entender” o oponente, se vulnerabiliza, desconectado da realidade. O lutador superior está receptivo ao combate, mantendo a mente despreocupada para agir com naturalidade.

Taijiquan (Tai Chi Chuan)

O Taijiquan (Tai Chi Chuan) ensinado numa escola onde vigorem os valores orientais tradicionais de ética, compaixão e não-agressão (wǔdē, , a virtude marcial), cultiva essa capacidade de abdicar do pensamento e de acompanhar, sem “perder a batida”, o fluxo dos acontecimentos – não se trata de uma atividade estética (a beleza do Taijiquan (Tai Chi Chuan) é muitas vezes assemelhada à dança), e vai muito além da ressignificação atual de “prática corporal de saúde integral”. É, nesse sentido, um verdadeiro caminho de desenvolvimento pessoal, que causa transformações sensíveis em todos os planos do viver e do agir.

Entendemos que a ansiedade que as pessoas experimentam no mundo capitalista pós-moderno (claramente expressa nos índices absurdos de consumo mundial de ansiolíticos) vem da clivagem entre mente e corpo que mencionamos – conflito interno a que temos que responder diariamente. O Taijiquan (Tai Chi Chuan) reduz tal angústia existencial na medida em que os treinamentos reconciliam a mente ao corpo, e portanto ao real e ao presente. Assim se obtém a serenidade, paz que inclui ação e não se restringe à contemplação do místico – e tampouco está no além. Acompanhando as mutações do mundo, que acolhe com simplicidade, o sábio retraça seu caminho a cada instante: desapegado, alerta, vive a verdadeira Vida.