Revista de Taijiquan 2015

Uma Mulher Como Co-Fundadora do Taijiquan (Tai Chi Chuan)

por Jan Silbestorff, fundador e Diretor Técnico da WCTA-Br (CXWTABR – World Chen Xiaowang Taijiquan Association). Tradução de Jucival Souza.

Chen Wangting (1597-1664) é reconhecido por todas as fontes oficiais como o antepassado fundador do Taijiquan (Tai Chi Chuan) Chen, estilo a partir do qual todos os outros estilos familiares de Taijiquan (Tai Chi Chuan) se desenvolveram.
Após a mudança da Dinastia Ming para a dinastia Qing, Chen Wang Ting, um general com elevada experiência em campo de batalha, retornou à sua aldeia natal – Chenjiagou – onde, em reclusão, dedicou-se ao estudo das doutrinas taoístas e da alquimia interna. A partir de ambos os conhecimentos (artes marciais e alquimia interna) ele criou um novo sistema de arte marcial orientado para a saúde, que mais tarde se tornou famoso com o nome de Taijiquan (Tai Chi Chuan).

Chen Wangting baseou sua nova arte, fundamentalmente, em duas obras clássicas, o “Ji Xiao Xin Shu – O manual de novas técnicas de treinamento” (1575), escrito por um também general da dinastia Ming, Qi Jiguang (1528-1587), e o “Huang Ting Jing (Huang ting nei wai yu jing jing – O Clássico do pátio amarelo no interior e exterior da paisagem de Jade)”. Com sua vasta experiência, e apoiado por esses dois trabalhos, ele combinou arte marcial externa com o trabalho interno de energia.

A obra de Qi Jiguang descreve as principais características das artes marciais chinesas de sua época, e destaca as técnicas mais eficazes. Chen Wangting baseou suas técnicas, principalmente, no capítulo 14: “Quan jing – Essência do clássico do pugilismo” do trabalho acima mencionado. O Huang Ting Jing consiste basicamente de 36 capítulos originais e outros três capítulos, em forma de verso, sobre conduta adequada de vida, nutrição, sexualidade e principalmente trabalho interno da energia para obter a imortalidade.

Embora haja uma grande quantidade de informações confiáveis sobre o autor de “Ji Xiao Xin Shu”, até então, quase nada tem sido divulgado sobre a autoria do “Huang Ting Jing”.
O título completo “Huang ting nei wai yu jing jing” é formado pela cor amarela (“Huang”), que na China sempre teve um significado especial. Era a cor do Imperador e, na teoria dos cinco elementos, foi atribuída ao elemento Terra, que por sua vez simboliza o centro. “Ting” representa o quintal ou pátio. Originalmente, as construções chinesas possuíam um pátio no centro. Isso simbolizava o centro e o estado mais elevado, o vazio. “Nei” (interno), “wai” (externo), “yu” (Jade) e “jing” (paisagem) denotando o “O interior e exterior da paisagem de Jade”. Uma descrição do nosso próprio corpo. O último termo “jing” significa livro no sentido de “clássico”. “Huang ting” (pátio amarelo) é na tradição taoísta o centro do corpo (Dan Tian) e o vazio como a maior meta espiritual, que deve ser alcançada por meio da transformação da energia dentro dos três dantian (“huang ting san gong”) . “O clássico do pátio amarelo interno no interior e exterior da paisagem de Jade” refere-se, assim, a um documento sobre o trabalho interno da energia ao longo do próprio corpo em relação ao seu centro ou centros.

De acordo com a nossa pesquisa realizada com a ajuda de Wang Ning, Ken Rose, Jarek Szymanski e do Grão mestre Chen Xiaowang, eu cheguei à conclusão de que a autoria do Huang Ting Jing só pode ser atribuída a uma mulher, Wei Huacun 魏 華 存 (251/252 – 334 D.C.) também conhecida como Xian An.

O Huang Ting Jing foi originalmente chamado “Huang ting nei jing jing” (O clássico do pátio amarelo da paisagem interna) com 36 capítulos, escrito, provavelmente, no início da Dinastia Jin (265-420. D.C). De acordo com fontes do Chengdou Zhongjiao Xueyuan, uma associação orientada para estudos taoístas, sediada em Chengdou (República Popular da China), em 288 o Imperador Jing Wudi solicitou uma segunda parte para ampliar o Huang Ting Jing, o “Huang ting wai jing jing – O clássico do pátio amarelo da paisagem externa”, com três capítulos. Muito tempo depois, na dinastia Sui, Tang ou até mesmo na Song, uma terceira parte foi adicionada, o “Huang Ting zhong jing jing – O clássico do pátio amarelo da paisagem do meio”. Entretanto, por representar, essencialmente, uma síntese das duas primeiras partes, esta terceira parte não é tão valorizada. Por conseguinte, geralmente não está incluída no Huang Ting Jing.

No que concerne à autoria da primeira e principal parte do Huang Ting Jing, o único nome a que se faz referência é o de Wei Huacun, que provavelmente o escreveu ou compilou e publicou na segunda metade do século III D.C. Além de Wei Huacun é impossível rastrear a origem do livro. Não é possível identificar que partes da obra ela mesma escreveu e quais compilou a partir de textos antigos. Assim, no contexto global, a autoria do Huang Ting Jing só pode ser atribuída a Wei Huacun. Da mesma forma que se atribui a Zhuangzi o livro que leva o seu nome, e a Laozi o Dao De Jing.

Há poucos registros históricos sobre a vida dela. Nascida, provavelmente, em 251 ou 252 depois de Cristo, em Rencheng, na província de Shandong, era a filha de Wei Shu, um ministro da educação na Corte do imperador Wu da dinastia Jin Ocidental (265-316 D.C). É provável que Wei Shu fosse discípulo do “Caminho dos Mestres Celestiais (Tianshi)”. Aos 24 anos de idade, presumivelmente contra a sua vontade, Wei Huacun foi dada em casamento por ordem de seu pai para uma dos líderes dos “Mestres Celestiais”, Liu Wen de Nanyang, que era um historiador influente na Corte. Eles tiveram dois filhos juntos.

Nesse contexto, Wei Huacun recebeu uma sólida formação taoista e foi educada entre outras coisas para ser um mestre ritual (“Jijin”), sendo iniciada também em práticas sexuais taoistas. Com a chegada da dinastia Jin Oriental ao poder (317- 420 D.C), sua família emigrou para a atual Nanjing (antiga Jianye), onde Wei Huacun passou a maior parte de sua vida em reclusão.

Ela teria compartilhado o Huang Ting Jing com um de seus filhos, que o teria passado ao seu discípulo Yang Xi, a quem coube difundi-lo. Seu período de atividade está inserido no início da escola taoista da “Claridade suprema” (“Shangqing”), o que faz com que ela seja considerada primeira matriarca (e, portanto, sua fundadora). Sua morte remonta ao ano 334 D.C.

A lenda da Senhora Wei Huacun diz o seguinte: Wei Huacun dedicou-se desde tenra idade muito a sério à meditação taoista, ao estudo de Laozi, Zhuangzi e da alquimia interna. Aos 24 anos seus pais arranjaram seu casamento, então ela teve que desistir de sua prática. Mas ela orou aos imortais para que eles encontrassem uma maneira, apesar das obrigações impostas por sua família, de ela continuar a cultivar o Dao. Após concluir a educação de seus dois filhos, decidiu por assumir seu verdadeiro destino e praticar do Dao, em reclusão.

Diz-se que ela alcançou o Dao no cume do Sul (“Nanyue”, provavelmente Hengshan na província de Hunan). Comenta-se que nesta região, àquela época, teria ocorrido um intenso intercâmbio de conhecimentos taoistas e budistas. Um dia, enquanto meditava, ela foi subitamente envolvida por música e um som de carro se aproximando. Em uma luz brilhante apareceram para ela quatro imortais que, comovidos por sua dedicação e prática incessante, lhe entregaram livros sagrados e a honraram com o título de “Senhora da Montanha do Sul”, ou Nanyue Furen. Um dos imortais era Jing Lin Zhen Ren, que segundo a tradição lhe entregou o Huang Ting Jing.

O seguinte ditado é atribuído à Senhora Wei: “No interior, iluminar o perfeito e o correto (zhengzhen), e no exterior, controlar os interesses mundanos (shiye) são sinais da mais elevada virtude”.

Aos 83 anos de idade, tomou um elixir especial que lhe foi entregue por Wang Bao, (“A perfeição do vazio original”), e desapareceu da face da terra. Seguindo os conselhos de Wang Bao, permaneceu reclusa em uma caverna na montanha Yangluo, onde jejuou por 500 dias. Mais uma vez os imortais apareceram a ela e lhe entregaram novas escrituras, após os estudos e prática, ascendeu aos céus para o “Palácio da Suprema Claridade” (1). Também reza a lenda que ela desceu dos céus para entregar as escrituras a Yang Xi (2). Em alguns documentos, aparece depois da Rainha Mãe do Ocidente, Xiwang Mu, ocupando o segundo lugar na hierarquia celestial feminina.
Seja apresentado pelos imortais, compilados a partir de textos antigos ou mesmo escrito por ela, Wei Huacun é a responsável pela divulgação de Huang Ting Jing e pelas técnicas nele descritas.

Está claro, portanto, que o general Qi Jiguang, um homem, compilou e publicou as mais importantes técnicas de artes marciais de seu tempo, e Wei Huacun, uma mulher, fez o mesmo com a essência dos trabalhos de energia e os ensinamentos taoistas sobre a conduta de vida. Consequentemente, pode-se dizer que aquilo que mais tarde seria conhecido como Taijiquan (Tai Chi Chuan), se fundamenta na obra de um homem sobre as artes marciais e no trabalho de uma mulher sobre o uso da energia interna. Chen Wangting uniu ambas as fontes num só sistema, dando origem ao Taijiquan (Tai Chi Chuan), uma criação inspirada em partes iguais por um homem e uma mulher.

(1) Virtual images / Real Shadows: The Transposition of the Myths and Cults of Lady Wei, James Robson
(2) Yin Zhihua