Revista de Taijiquan 2016

As três fases da meditação sentada no Taijiquan (Tai Chi Chuan) estilo Chen da WCTA

por Jan Silberstorff, em Chen Taijiquan (Tai Chi Chuan) Magazin 2009. Traduzido do original alemão por Siegfried Elsner.

Taijiquan (Tai Chi Chuan) representa o equilíbrio entre calma (jing) e movimento (dong), duro (gang) e macio (rou), alto (gao) e baixo (di), rápido (kuai) e lento (man) – todas são qualidades que aparecem dentro do espaço de movimentação da vida, e são representadas e treinadas na Primeira Forma. Mas existem ainda outras áreas do sistema, nas quais determinadas qualidades são realçadas, sempre, porém, considerando todas as outras. Assim, temos na Segunda Forma um peso maior nos movimentos explosivos, no Dalu, a quarta rotina do Tui Shou, o praticante se concentra em posturas muitos baixas, já uma forma com armas toma a arma como ponto de partida, etc. A meditação sentada representa um meio extraordinário de dedicar-se exclusivamente ao Espírito. Isto, com a intenção de acalmá-lo tanto, que aos pouco é possível fazer experiências do Vazio. A última meta é a experiência do Vazio autêntico como essência e origem de todas as coisas. Em vida, encontramo-nos no ambiente do Ser, que por sua vez se origina no ambiente do Não Ser. Por isso, escreve Laozi no versículo 1 do Dao De Jing (Tao Te King):

Não Ser, eu chamo o início de Céu e Terra. Ser, eu chamo a mãe dos seres individuais.

O Dao gera o Um. O Um gera o Dois. O Dois gera o Três. O Três gera as Dez Mil (todas) coisas, diz o Velho Mestre no versículo 42. A origem, o Nada, gera algo que existe. Assim o Ser é oriundo do Não Ser, o Taiji do Wuji. Da combinação de Céu e Terra são gerados os seres individuais, diz ainda no versículo 1 do Dao De Jing:
“Por isso, o direcionamento para o Não Ser conduz à contemplação dos Seres maravilhosos, enquanto o direcionamento para o Ser leva ao ver das limitações no espaço”.
No Não Ser está contido o Eterno, o Indivisível, a Unidade e o não–diferenciável, e por isso Imutável. É a única manifestação existente por si mesmo, o Vazio. Assim, diz no versículo 25 do Dao De Jing: “O homem é por causa da (se orienta pela) Terra. A Terra é por causa do (se orienta pelo) Céu. O Céu existe pelo (se orienta pelo) Dao. O Dao existe por si mesmo (se orienta por si mesmo, ou seja, naturalmente) (ren fa di, di fa tian, tian fa dao, dao fa ziran). Por isto, o direcionamento para o Não Ser leva à união com o Dao, “à visão dos Seres maravilhosos”. Esta visão é a razão e a finalidade da meditação sentada. O Ser traz a limitação dentro de si. Nada que existe é livre de transformação. Pois nada existe por si mesmo e por isto encontra-se na dependência de muitas causas, o que traz o efeito correspondente. As causas ou as partes componentes, que na sua totalidade criaram um determinado estado de existência, são por sua vez criadas por uma abundância de causas. Lidamos assim com uma quantidade infinita de conexões e estados, e todas por sua vez estão envolvidas nas suas próprias dependências. Como no ambiente da existência tudo está em movimento, não pode ser criado um estado manifesto imutável e assim fazemos a experiência: tudo no dualismo é perecível e por isso transitório. A construção de um Eu, que como todo o resto não existe por si mesmo, mas é simplesmente o produto de diversos fatores que se unem, cria em si, porém, a imagem de existência própria e de independência. Nós todos sabemos que não é bem assim, mas mesmo assim agimos como se fosse. Nosso Ego tenta fazer surgir esta impressão, e que nos consideremos como algo manifesto. A partir deste sentimento temos a inclinação que, por seu criador, o Ego, é chamada de egoísta. Esta visão da “limitação no espaço” descreve assim a situação de um ser individual que, por causa do seu Ego, não é mais capaz de perceber a relação total de sua criação, e por isso começa a preferir a si mesmo que ao outro. Como isto é baseado em um erro fundamental e numa falsa valorização da própria natureza, só poderá, no final das contas, levar a ações penosas e ignorância. As conseqüências são guerras, destruição do Meio Ambiente e a sensação de solidão e infelicidade. Mas, como todo ser humano quer ser feliz, todos têm em si o desejo (mesmo que muitas vezes inconsciente) de ser novamente conectados a este processo da criação. E isto, por sua vez, é o propósito da meditação. Começamos assim uma viagem do estado de dualismo desordenado, primeiro para sua ordenação, ou seja, harmonização de Yin e Yang, para depois continuarmos até seu lugar de origem, a porta entre Ser e Não Ser, e passarmos por ela para dentro do reino do Não Ser. Resumindo: do caos para o nível do Taiji e de lá para a dissolução, ou seja, o surgimento deste, o Wuji. Mas como acontece isto? Examinando melhor o ideograma Dao (figura 2), encontramos do lado esquerdo dois pés, que simbolizam tanto o caminho como o passar pelo caminho. No lado direito encontramos uma cabeça com olho(s), que estão direcionados para uma meta, definida pelo caminho. Encontramos um ditado: “O caminho é a meta”. Uma interpretação mística vê nos dois pontinhos ao lado direito dois olhos que estão direcionados para o Um, abaixo (um traço reto). Este Um, isto é, a experiência da Unidade, é encontrado no radical abaixo (zi), descrevendo o Eu. Dao descreve, assim, a visão da unificação direcionada para o interior (para dentro de si mesmo), e o caminho para lá. Como esta viagem de conhecimento está escondida dentro de nós, diz no versículo 47 do Dao De Jing:

Sem sair pela porta, a pessoa (o que é chamado) conhece o mundo.

No Evangelho de Tomás 3.3 está escrito assim: “O Reino (de Deus) está dentro de vós…“ Laozi descreve o alcançar da percepção mais original das profundezas da alma, como nós dizemos na nossa cultura formada pelo cristianismo, no sexto verso, assim: “O Espírito do Vale não morre, isto é a Mulher Escura. A porta da Mulher Escura é a raiz de Céu e Terra. Sem esforço, age ininterruptamente e constantemente”.
Sigmund Freud descreve nosso consciente como sendo a minúscula ponta de um Iceberg, que fica 95% escondido em baixo da água, e lá forma o subconsciente. Sendo assim, só estamos conscientes da menor parte da nossa consciência. A parte principal fica escondida. Aos pés de uma montanha encontra-se um vale, e o espírito do vale é assim a real causa do nosso Ser. Que este não morrerá, deduz-se da sua natureza já descrita, do seu vazio e por isto imutabilidade. Por isto é o Eterno. É chamado também de Mulher Escura, por estar dando à luz (das origens, o “escuro”). Do Nada origina-se a partícula e a antipartícula, Yin e Yang. A interação desta dualidade originada no Um é o Três, e destes se originam as coisas incontáveis (as Dez Mil coisas). Existe uma Virgem que é ao mesmo tempo Mulher, diz Meister Eckhart (Sermão 2). Chame isto o estar sem imagens, a tranquilidade desapegada, e por isto a pureza, da qual surge o fruto. A origem (Virgem), da qual tudo se produz (Mulher). Aqui nós temos o portal (da Mulher Escura), do qual saem Céu e Terra (Yin e Yang). Sempre de novo o Velho Mestre (Laozi) nos indica esta passagem da fronteira entre o vazio original e as coisas diferenciadas (seres diferenciados). Se eu puder experimentar este espírito do vale morando dentro de mim, terei chegado ao ponto de origem das coisas. Esta percepção do vazio e o caminho para lá, que me conduz ao longo de todas as estações mais profundas da espiritualidade e das origens das mais variadas formas, cria em mim a real percepção das coisas – como elas surgiram, como estão e como acabarão. Isto (a experiência do Vazio) é chamado no Budismo de sabedoria. Desta “direta e real percepção” (1) surge por sua vez o “direto e real Saber”, (2) que leva à “ação direta e real”. Na alquimia Daoísta, que é o fundamento do Taijiquan (Tai Chi Chuan), o primeiro é chamado de (1) verdadeiro chumbo, e o segundo de (2) verdadeiro mercúrio. Assim podemos entender a frase do Mestre daoísta da alquimia interna, Zhang Boduan, do século XII: “A verdadeira Terra segura o chumbo verdadeiro. O verdadeiro chumbo controla o verdadeiro mercúrio. Chumbo e mercúrio voltam para a Terra verdadeira. Corpo e mente permanecem tranquilos e calmos.” A verdadeira Terra significa aqui a intenção essencial do ser humano. Um homem que fez a experiência autêntica do Vazio, nunca mais poderá esquecer esta sensação mais íntima. Sua intenção a tomará e a carregará consigo. Por isto, a Terra segura o chumbo verdadeiro. Desta experiência do original e de tudo que daí se originou surge o Saber verdadeiro, que nos pode levar à ação verdadeira. Por isto o chumbo verdadeiro controla o mercúrio verdadeiro. Quando ambos juntos formarem uma unidade, retornam para a intenção natural e o homem vive em verdade e felicidade, ditas unidade. Por isso, corpo e mente permanecem tranquilos e calmos. Também Laozi aponta para o Não Ser e o Ser, com a próxima estrofe do primeiro verso de seu Dao de Jing:

Na sua unidade é chamado de Segredo
O segredo ainda mais profundo do segredo é o portal, do qual surgem todos os milagres.

A Unidade descreve a unidade de Ser e Não Ser, isto é, a experiência da mais alta realidade e do saber dela nascido,de cujo portal (veja acima) surgem todos os milagres. Da união da experiência mística (Dao) e do Saber dela nascido deverá surgir a ação reta que corresponde a este Saber. Esta “ação direta e real” é chamada de “de”, virtude, por Laozi, e se distingue absolutamente de moral, por aquela (virtude) referir-se à experiência da realidade e não à imaginação social artificialmente criada. Por isso diz no verso 38 do Dao De Jing (versículo 1 parágrafo “De”), no qual o conceito “virtude” é traduzido por ”vida” e “moral” por “costume”: “Se o Dao estiver perdido, assim será também a vida. Se a vida estiver perdida, assim será o Amor. Se o Amor estiver perdido, assim será a Justiça. Se a Justiça estiver perdida, assim será a Moral. “A Moral é escassez da Fidelidade e da Fé, e o início da confusão.” Examinando melhor o ideograma “De”, encontramos à esquerda dois pés, na forma antiga (hoje duas pessoas), e à direita uma linha reta contida na cruz com um olho e um coração abaixo dele. O conhecido calígrafo Wang Ning junta estes radicais como “vendo diretamente para frente a partir do coração”. Com os dois pés, é então: “o Caminho de olhar com o coração reto para frente”. “De” representa, na visão de Laozi, o complemento de “Dão”, pois é a ação do nobre que o torna perfeito. A experiência mística da Unidade é assim somente um lado da medalha. Somente pela ação direta e singela o homem cresce e se torna perfeito no interior e no exterior. Assim diz no versículo 3.3 do Evangelho de Tomás, acima mencionado,: “O Reino de Deus está dentro de vós e fora de vós”. Laozi diz: “(Ser e Não Ser) ambos são iguais e diferenciados somente no nome”. (Dao De Jing verso 1) o Dao engloba todas as esferas e assim o Verdadeiro reconhece sua origem no Um, e age, daí, pelo Múltiplo. “Dao” e “De” confluem para uma Unidade, da experiência nasce conhecimento, e a esta deve seguir a ação. Somente assim se pode alcançar a perfeição. Por isto diz também Meister Eckhart, que virgindade não é suficiente, é preciso dela surgir a Mulher. Virgem é o puro Não Ser não ilustrado, Mulher é o Ser dele originado, que é capaz de dar frutos. Virgem e Mulher devem juntas formar uma Unidade. Assim o conhecimento nascido da percepção se transforma em ação virtuosa. Assim segue, depois da introspecção profunda, da viagem até as origens, uma sabedoria que se expande deste ponto, e que finalmente desemboca numa ação virtuosa. Agora – esta viagem ao interior não é algo que deve ser conquistado. É mais um deixar livre. É abandonar até a última instância, até que nada mais sobre, no verdadeiro sentido da palavra. Só aí se pode experimentar o Vazio real. Wuji e Taiji não são duas áreas independentes entre si. É como com o silêncio. Tomemos um lugar silencioso, no qual nós agora fazemos um barulho enorme. Nós chegamos lá, mas ninguém foi embora. Também não o silêncio. Continua estando lá, mas não podemos percebê-lo mais por causa do volume de nosso barulho. Desistindo do nosso barulho, o silêncio fica perceptível novamente, mesmo que não seja necessário para o silêncio voltar novamente para lá. É como o antigo exemplo do sol coberto por uma nuvem. Por causa da nuvem, o sol não foi embora, só não podemos vê-lo mais. A questão na meditação não é criar algo, mas bem pelo contrário, diminuir cada vez mais e deixar de lado. Assim escreve Laozi (Dao De Jing verso 48):

Quem exercita o Dao, diminui diariamente. Ele diminui e diminui, até finalmente chegar na não-ação.

Somente pelo renunciar (deixar de lado), renunciar a si mesmo, alcançamos o estado “como éramos, quando não éramos” (Eckhart). Tudo a fazer deve ser deixado, isto é, deve não ser feito. Neste caso, num processo espiritual. E até o Não-Fazer deve ser deixado de lado. Este é o ponto central da meditação. Mas este não-fazer-nada espiritual não significa estar simplesmente sentado. Ele significa um desapegar-se constante. Um desfazer-se até que não sobra realmente nada mais. Somente então podemos falar de um não-fazer. Aqui é importante distinguir entre dois processos. O primeiro é o meu desapegar quase ativo para alcançar o nada. Parece ser paradoxo, mas no início é necessário certo esforço para deixar de lado, para chegar num fluxo ao qual devemos nos entregar sem resistência. Eu mesmo preciso caminhar a primeira parte do caminho, para então ser puxado. Na nossa cultura dizemos, libertar-se de si mesmo para abrir-se para Deus, significa que, em conseqüência, seremos elevados pela graça de Deus. Quanto mais eu conseguir me esvaziar no meu interior, tanto mais será gerado em mim um fluir e uma sucção que me puxa às profundezas do Ser até chegar ao Não-ser, o vazio autêntico. Pela visão Daoísta precisamos descer até o silêncio mais profundo, até a origem do Yin, o que de certo modo significa nosso esforço próprio, para que então, no Yin extremo, possa surgir o Yang puro, ao qual agora nos devemos entregar totalmente; pois este processo somente pode acontecer conosco, mas nós não o podemos “fazer”. Este processo de entrega é possível somente através de um potencial avançado de amor, confiança e de capacidade de desapego. Nossa vida externa tem um papel decisivo aqui também, porque nós bloquearíamos este processo de Wuwei em desenvolvimento, o processo do não agir, através de um agir negativo. Por que é assim? Cada ação negativa no exterior traz consigo, seja consciente ou inconscientemente, uma sobrecarga interna. Se eu tomar algo de outra pessoa, minha consciência ou o medo de ser pego se manifestará. Se eu tratar os outros a meu redor de forma egoísta, sempre terei conflitos com o meu ambiente. Tudo que é desagradável e que parte de mim, aumenta o potencial de não conseguir chegar à tranqüilidade na meditação de maneira profunda. Mesmo que eu tiver largado aparentemente meus apegos superficiais a coisas mundanas, os meus desejos e apegos inconscientes nas esferas mais profundas da meditação se encarregarão de não me deixar progredir. Aqui não se trata mais de pensamentos e emoções aparentes que me alertam para o problema. Nos níveis mais profundos não existem mais pensamentos neste sentido, que me poderiam alertar. Percebe-se simplesmente uma estagnação. Parece existir um vazio, mas percebemos que, por um lado, nem de longe chegamos ao destino, e por outro lado, que não avançamos mais; sem saber, porém, o que fazer. Aqui é aconselhável ter um mestre experiente ao nosso lado, que poderá nos alertar para os apegos ou dificuldades escondidas. Dentro deste processo se reconhece e percebese muito real o princípio budista do Karma. Deve-se procurar a chave para continuar o progresso neste modo de ação do Karma. É por isto que um modo de vida direcionado para a meditação é tão importante quanto a própria meditação. Aqui devemos entender novamente o conceito de “De”, que contém em si um agir que leva à tranqüilidade de coração, tanto em mim mesmo como nos outros, da mesma forma, já que as duas coisas não podem ser separadas. Inicialmente, chegamos neste processo a uma tranqüilidade e postura pacífica interna, que por sua vez serão de necessários para alcançar progressos profundos na meditação. Assim Zhuangzi escreve sobre “jejum do coração”, deve acontecer após o acalmar dos pensamentos. A “agitação interna” (Meister Eckhart) deve ceder a uma ausência de intenções. Por isso, o sentar em profundidade é tão necessário como uma vida externa impecável, pois isto – tomado ao pé da letra – dá um suporte enorme ao processo de ficar sentado em meditação. Então podemos também entender as palavras de Buda, Laozi e Meister Eckhart, quando eles chamam atenção da mesma forma para evitar extremos: ações más impedirão este processo, mas a vontade de ser bom de maneira eufórica também colocará o espírito em inquietação. O mesmo acontece nos processos de estar sentado em meditação. Zhang Boduan escreve a respeito:

O fogo no forno de Jade está quente.
Da tigela sobe vapor roxo.

O forno de Jade está aqui pela maleabilidade da Terra; a serenidade calma do trabalho que está sendo feito sem pressa nem agitação. A tigela por sua vez está pela firmeza do Céu: a firmeza e inflexibilidade da vontade que não se deixa perturbar. Serenidade e disciplina devem agir da mesma forma para alcançar o sucesso. Novamente o texto deve ser entendido de duas maneiras. Por um lado, meramente técnico durante a meditação. Permanecer sereno e intuitivo, em combinação com a intenção, aplicada de forma correta, é o melhor método para alcançar progresso rápido (chamado de processo de ignição). Deixar madurecer os resultados da meditação na vida, precisa, por sua vez, tanto da serenidade de deixar acontecer lentamente, como da observação disciplinada exata para não mais deixar o caminho. A geração do elixir interno se compara muitas vezes com o crescimento de um embrião, que recebe uma gestação em serenidade (permitindo seu próprio crescimento) e disciplina (não permitindo que se desvie de seu caminho), até que aconteça o (re-) nascimento. Podemos comparar também com a educação de uma criança, até que se torne adulto. Visto desta forma, somente um ser espiritualmente maduro e plenamente desenvolvido pode ser considerado “adulto”, quer dizer independente, existindo livremente em si mesmo. Assim, a meditação chega a uma fusão de “Dao” e “De”, isto é, à união entre visão de sabedoria mística e sua aplicação na vida. Isto por sua vez faz surgir o homem verdadeiro no seu potencial completo, o qual, pela natureza de sua existência divina, é bom.

A respeito da técnica

Todas as três fases ou graus dentro da nossa meditação possuem um efeito duplo. Por um lado, querem preparar para o próximo grau e nível, e conduzir com segurança o praticante até as experiências profundas de vazio autêntico. Os exercícios são, por outro lado, concebidos de forma que são desenvolvidos aspectos extremamente pragmáticos e importantes dentro de cada grau, importantes para todo o sistema do Taijiquan (Tai Chi Chuan) do estilo Chen (e de todos os outros estilos de Taijiquan (Tai Chi Chuan)).

Fase 1: O Relaxamento

A primeira fase serve, antes de tudo, como preparação para “o ficar sentado” simplesmente. Nossa mente tem que ficar tranqüila, e mesmo assim temos ainda algo para fazer – movimentamo-nos enquanto sentados, para que a mente inquieta não precise rebelar-se tanto. Pessoas ainda sem prática em meditação têm, primeiramente, o problema de ficar inquietos e incomodados enquanto permanecem em silêncio, antes de alcançar serenidade. Por isso a primeira fase é projetada de modo a corresponder plenamente aos critérios do Qigong sentado. Semelhante às formas, utilizamos o movimento para alcançar a tranqüilidade. Mas, como estamos sentados, e o movimento de ambos os braços é de circular e repete-se monotonamente, o grau de serenidade aumenta significativamente. Os movimentos são feitos de modo muito similar aos exercícios de Desnrolar a Seda frontais. Como a consciência aqui não tem que trabalhar com os fluxos de energia, pode ficar quieta, enquanto o corpo começa a reagir com aos exercícios de Desenrolar a Seda independentemente, acostumando-se a estes. Como isto, gera-se um alto grau de bem-estar e conforto. O corpo está sendo suavemente “energizado”. Estamos sentados numa cadeira, para que as pernas participem do processo sem serem sobrecarregadas pelo peso do corpo. Com esta prática, percebemos um efeito terapêutico muito alto para os joelhos, e por isto utiliza-se estes exercícios há alguns anos para pessoas com problemas nos joelhos, com sucesso extremo. Devido à postura sentada numa cadeira, a conexão com as pernas continua aberta (contrário na postura de lótus), e é bem mais fácil para a área do Dantian servir como ponto de coleção de energia, por não existir um espaço tão grande abaixo, como é o caso na forma, nos Exercícios de Seda ou na Meditação em Pé. Exatamente por a postura ser sentada é criada a possibilidade de melhorar a capacidade de sensibilidade. Para a maioria dos praticantes, é mais fácil desenvolver o Dantian através deste exercício. Por meio dos movimentos executados, está sendo bombeada energia de todo o corpo para a área do baixo abdômen, e ela pode ser facilmente coletada nesta posição. Uma percepção profunda é assim gerada. Muitas pessoas praticam Taijiquan (Tai Chi Chuan) a vida inteira e mesmo assim o Dantian continua sendo uma mera imaginação, se considerado sinceramente. Esta imaginação só gera outra imaginação. Para alcançar resultados reais, não se pode ficar parado aqui, é preciso conseguir uma percepção energética verdadeira nesta área. De onde mais poderíamos iniciar um movimento? Dantian é o ponto de conexão entre pensamento (yi) e do movimento (dong). Sendo o Dantian porém somente uma imaginação, nada mais além dela acontecerá e o movimento corporal continuará vazio. O desenvolvimento efetivo do Dantian e uma boa energização do corpo, assim como o transporte desta para as formas do Taijiquan (Tai Chi Chuan), é o alvo “externo” desta primeira fase de meditação. A meta “interna” é o acostumar-se ao sentar e o desenvolver do sentimento de bem-estar e paz interior. É importante uma prática ininterrupta de cem dias durante uma hora para um executar sério desta primeira fase. Para uma prática amadora, vale aqui como para as outras fases: quando e quanto puder, toda prática é válida.

Fase 2: A Concentração

Nesta fase abolimos qualquer movimento externo. Estamos agora sentados em tranqüilidade imóvel e dirigimos toda nossa atenção à percepção do Dantian que desenvolvemos na primeira fase. Nossa atenção (yi) é como o gás de um fogão que mantém a chama ardendo. Nossa mente agora está em condições de perceber conscientemente o Dantian sem precisarmos fazer algo através de movimentos externos. Tendo, na primeira fase, aprendido a colocar o Dantian em ação, por meio de movimentos externos, é agora nossa mente que assume plenamente esta tarefa.
É como no fluxo da energia interna. No início tentamos iniciar esta energia pelo treino das formas nos movimentos prescritos. Mas num nível mais avançado, esta movimentação não pode acontecer de fora para dentro, ela deverá desenvolver-se de dentro para fora. Não é mais o movimento externo que traz fluxo energético interno, mas é o fluxo interno de energia que produz o movimento externo. Como mais poderia o Taijiquan (Tai Chi Chuan) ser efetivo na luta e para a saúde? Nas três conexões internas (Nei San He), diz-se de forma resumida: a mente conduz a energia, e a energia conduz o corpo. Precisamos então aprender assumir este processo a partir de dentro, depois dos estímulos a partir de fora. Como o Dantian é o centro do movimento, é primeiramente a mente que deve perceber o Dantian e agir a partir dele. Este resultado nos será de grande utilidade nas formas e deverá ser levado para estas através da meditação. Nós desenvolvemos esta capacidade, de estarmos com a mente “no Dantian”, nesta segunda fase, como meta externa. A meta interna é a capacidade para a concentração. Como a mente comumente está acostumada a pular entre mil coisas, aprendemos agora concentrá-lo num único ponto (ou assunto). Conseguindo isto, todo desvio de atenção desaparece, e torno-me unidirecionado. Esta redução de mil pensamentos para um único, este unidirecionamento, é tarefa da segunda fase da meditação, que deveria outra vez ser praticada por cem dias sem exceção, durante uma hora, por pessoas de intenção séria.

Fase 3: O Vazio

Tendo chegado a uma atividade espiritual não dividida, à percepção do Dantian, precisamos em teoria deixar esta de lado, para penetrar passo a passo dos estados iniciais de vazio até uma percepção plena deste vazio. Libertar-se disto na prática é um longo caminho. Precisamos, primeiramente, entender que esta última fase nos acompanhará pelo resto da vida. Pois esta “viagem” até um desapego total, até o “espírito do vale”, até o vazio autêntico final, levará à percepção do Wuji. O potencial de iluminação do Taijiquan (Tai Chi Chuan) está contido nestas experiências, e toda prática dentro do sistema deve ser afinada com esta experiência. Quanto mais profunda for minha experiência do Wuji, tanto mais a mente conseguirá permanecer na serenidade apesar do movimento mental e físico. De acordo com o grau de aprofundamento, alcança-se um agir do Taiji dentro do Wuji, o que representa a forma máxima de “tranqüilidade em movimento”. Uma prática diária de uma hora durante cem dias será novamente um bom fundamento, que poderá ser transmitido em cursos. Depois disso o aluno deverá ter construído um bom fundamento para a meditação. Quaisquer explicações e instruções adicionais deveriam então ser realizadas em conversas pessoais não comerciais entre professor e aluno e não mais em aulas públicas. Conversas individuais com o professor são bem mais eficazes para reconhecer os progressos aparentemente pessoais, que pareceriam sem importância e seriam mal entendidos por aqueles que não meditam com seriedade. Acontece aqui um efeito realmente transformador de experiências de vazio, o que faz uma tal cooperação íntima não só necessária, como também de grande valor.

Concluindo

Enquanto para o praticante sério é importante construir este fundamento de trezentos dias consecutivamente, para depois possivelmente poder meditar mais e mais tempo, para o amador uma excelente alternativa é praticar as três fases em seqüência numa sessão, após certo tempo de acostumar-se à primeira fase. Daí resultará um exercício compacto excelente, independente do tempo de meditar, e com certeza cada minuto terá grande valor. Os três exercícios descritos neste tratado foram propositadamente explicados de forma resumida. É minha intenção alertar para a existência e as possibilidades da meditação. Não me parece, porém, haver sentido e ser digno de ser estimulado o aprendizado de meditação a partir de um livro, pois instrução pessoal é indispensável. Observação: todas as citações de Laozi são da tradução de Richard Wilhelm.